quarta-feira, 15 de abril de 2009

(...)

Frio,

Era tanto frio que estava difécil se concentrar. Se enrolava no cobertor fraco, sentindo os pés como pontadas de fogo em contato com a perna, seus lábios tinham movimentos involuntários. O quarto em que estava era tão modesto como o aparato que a aquecia, sentia o cheiro de quem dormia ao seu lado, podia ouvir-lhes a respiração. Cada um com um ritmo diferente.

Começou a imaginar um dia quente de verão, com a água do rio batendo em sua barriga, se refrescando. Imaginou que estava brincando com os amigos na rua, descalça. De repente o frio voltou, e ela começou a lembrar do tempo em que teve fome, lembrou que nunca foi ouvida, ou compreendida. Todos sempre achavam que ela era "diferente".

A diferença entre Letícia e as outras meninas de Hoteleiras era tão gritando que mesmo os adultos a evitavam. A menina não tinha medo de falar, não tinha receio do que viria, não tinha medo. Era a típica menina com personalidade.... Apesar de apenas nove anos.

Tinha poucos amigos, mas nenhum se comparava ao "Homem", esse sim a entendia, conversava com ela, visitava em segredo. E era o abraço dele que a envolvia nessa noite fria, quando seus olhos de fecharam, rendidos, seu corpo se aqueceu com um aperto aconchegante. Ainda guarava o segredo da cia do Homem, sua mãe não aceitaria, seu pai vivia trabalhando e bebendo.

Foi esse o homem que lhe deu uma boneca e pediu para que brincasse em sua cia, e só nesse momento. O mesmo que susurra palavras estranhas em seu ouvido inocente, que ensina novos caminhos, que está sempre ao seu lado. O sem-rosto...

Só voz e abraço...

Um comentário:

Heloisa Moraes disse...

fdklbp fghpiudv odifgum.
sem palavras.
adorei.